IPHAN-PI cadastra sítios arqueológicos no Cânion do Rio Poty
O Cânion do Rio Poty é um fenômeno criado pela passagem do rio Poti por uma fenda geológica situada na serra entre o Piauí e o Ceará.
Durante os dias 07, 08 e 09 de dezembro, uma equipe do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - IPHAN percorreu as margens do rio Poty que atravessa o município de Buriti dos Montes, cujos objetivos foram de cadastrar os sítios arqueológicos de gravuras rupestres e realizar palestras junto às comunidades situadas nas proximidades dos sítios arqueológicos.
Acompanhe abaixo o diário desta expedição.
Primeiro Dia
Apesar do exaustivo ritmo de trabalho, em virtude do calor, das condições de acesso e das longas caminhadas, tudo aconteceu dento do roteiro pré-concebido. Às 05h15min do primeiro dia, a equipe partiu de Teresina em direção a Buriti dos Montes. No meio do percursso tivemos que enfrentar um grande engarrafamento logos após o município de Altos, em virtude do tombamento de uma carreta na estrada, próximo ao riacho Raposa. A solução foi contornar o acidente utilizando a via de acesso que liga a cidade de Coivaras a Campo Maior.
Depois de abastecer o véiculo em Castelo do Piauí, o grupo seguiu para a Cachoeira da Lembrada, já no município de Buriti dos Montes, utilizando o acesso através do município de Juazeiro do Piauí.
O primeiro objetivo foi alcançado por volta das 14h30min. Ali foram cadastrados os primeiros sítios. Daquele ponto em diante, o deslocamento seguiu o curso rio acima, abrangendo parte do médio e alto cânion do Poty.
Após seis quilômetros de percusso foi cadastrado um sítio arqueológico com gravuras ruspestres na comunidade Conceição dos Marreiros, no final da tarde. Por estar localizado bem próximo da estrada e do povoado, o sítio está muito danificado por grafites atuais. Pode-se observar em um dos suportes rochosos uma gravação contemporânea com a seguinte frase “QUEM QUEBRARÁ AXARÁ”. Trata-se de uma lenda que tem atraído muitos visitantes que sonham em encontrar um tesouro enterrado no leito arenoso do rio, uma superstição da região que têm contribuído para novas pichações sobrepostas sobre os painéis com centenas de gravuras rupestres..
Ao pôr do sol, o grupo de pesquisadores se dirigiu ao colégio da comunidade onde foram recebidos pelos professores e líderes da comunidade. Na presente data eram realizados os festejos de Nossa Senhora da Conceição, comemorado dia 8 de dezembro. Na unidades escolar foi realizada uma reunião com as famílias do lugar para divulgar temas como patrimônio, meio ambiente, associativismo e turismo sustentável. Ficou evidente o comprometimento da comunidade em relação a identidade e preservação do patrimônio natural e cultural, o rio Poty e suas enigmáticas gravuras.
Segundo Dia
Logo pela manhã do dia 08, a equipe se deslocou cerca de 22km em direção ao terceiro e mais importante complexo de gravuras, localizado próximo a fazenda Espírito Santo. O sítio é conhecido por Poço da Bebidinha. Naquele estreito cânion nossos ancestrais autóctones nos deixaram um espólio pictórico sem igual em todo mundo. São milhares de gravuras registradas nos imensos monólitos lisos e negros por mais de um quilômetro. Devido especialmente ao difícil acesso, as gravuras não apresentam alterações antrópicas recentes, ou seja, não há nenhuma pichação.
A originalidade, a diversidade de temas e a preocupação com os detalhes encontrados em cada gravura impressionam o visitante. A impressão deixada pela arte rupestre da região nos revela um importante aprendizado sobre nossas culturas ancestrais, com o sentimento de que aqueles povos possuíam um elevado senso artístico e complexidade cognitiva.
No roteiro também podemos visitar o sítio histórico da fazenda Espírito Santo, edificação centenária, construída aos moldes da arquitetura colonial. A fazendo é habitada atualmente pela família do renomado Zé Caboclo, que, além de vaqueiro, é coureiro, e produz toda a indumentária necessária para a lida com a boiada: o chapéu, o gibão, o chicote, os arreios, a sela, com refinada arte e qualidade. Sua oficina funciona na própria varanda da sede da fazenda. No lugar não há luz elétrica e a paisagem é composta pelo rio Poty e a serra da Água Branca.
A expedição seguiu viagem para a comunidade Bebedouro, assim denominada pelo fato de ser um dos únicos pontos daquela região acidentada onde os animais podem se dirigir até o leito do rio sem ter que transpor os íngremes paredões e bicos de pedra.
Naquele povoado, moram pouco mais de uma dezena de famílias, capitaneada pelo famoso Chico Peres, o patriarca, homem de poucas letras, entretanto, dono de uma sabedoria universal capaz de cativar a todos que o rodeiam. Com o sol ainda reluzente, foi possível cadastrar o sítio arqueológico com gravuras rupestres que fica a poucos metros da comunidade. Diferente da Comunidade Conceição dos Marreiros, o local está em bom estado de presevação e não encontramos pichações. Em todos os pontos visitados, encontramos extensos poços que guardam grande quantidade de água potável, ideais para um banho refrescante, em contraste ao ambiente terrestre quente e seco. Estes imensos poços são verdadeiros santuários ecológicos para a fauna e flora local.
Durante a noite foi realizada uma reunião com a comunidade e os condutores de visitantes locais para uma palestra sobre patrimônio e meio ambiente.
Terceiro dia
Logo após os primeiros raios do sol do dia seguinte, foi a vez de cadastrar as gravuras do Poço da Barra que fica a poucos quilômetros do Bebedouro. Seu Antônio e Nenem, ambos moradores do Bebedouro, conduziram o grupo.
Após o registro, a equipe se dirigiu à localidade Curral de Pedra, já na entrada oeste do alto cânion. O que chama atenção ali são os enormes currais murados com pedra seguindo a tradição portuguesa. Os mesmos serviam para o descanso das boiadas antes de atravessarem a última etapa do cânion, denominado pelos locais de Boqueirão. Ao cruzar o desfiladeiro, os boiadeiros seguiam pelo sertão cearense rumo aos centros consumidores do Brasil colonial, Pernambuco e Bahia.
Naquele período, a região chamava-se Vila de Marvão. Tanto no curral de Pedras como na Oiticica, seis quilômetros à frente, existem gravuras, entretanto, não foi possível encontrá-las, pois houve dificuldade em conseguir guias para condução.
A equipe seguiu viagem penetrando o Boqueirão por vinte e um quilômetros na estrada que cruza a linha férrea várias vezes, margeando o rio Poty, entrecortando os paredões norte e sul da grande Cuesta da Ibiapaba (serra), até chegar ao município de Crateús, no Ceará.
Após cruzar o cânion, a equipe percorreu uma média de 40 km no sentido norte sul até chegar ao distrito dos Tucuns - CE, novamente na fronteira com o Piauí, retornando para oeste, em direção à aconchegante cidade de Buriti dos Montes, o relógio marcava 15h do terceiro dia de expedição.
Logo depois do tardio almoço, ainda deu tempo para que todos descansassem antes do último compromisso oficial programado. Às 20h aconteceu uma profícua reunião com mais de 60 buritienses representantes dos poderes municipais, professores, alunos e lideranças comunitárias. Muitos temas foram debatidos tendo como eixo principal a valorização do patrimônio material e imaterial.
Quarto dia
Logo pela manhã do quarto dia, a equipe ainda teve tempo de visitar a fábrica histórica da Cachaça Mangueira no município de Castelo do Piauí e o parque Municipal da Pedra do Castelo, antes de se dirigir para Teresina.
Participaram da expedição, a arqueóloga do IPHAN, Luana Campos, o motorista Carlito Gomes e o cientista social Benedito Rubens Luna de Azevedo (este narrador), como assessor do município de Buriti dos Montes.
Obviamente, há de se questionar a razão por que os povos ágrafos, ali instalados milhares de anos atrás, deixaram tão importante legado cultural, digno de ser considerado pela citada arqueóloga como um dos principais complexos de inscrições rupestres do mundo. É provável que a chave desta problematização esteja na importância que o cânion do rio Poty possuía, funcionando como uma rota migratória entre os nordestes ocidental (Piauí e Maranhão) e o nordeste oriental (Ceará, Pernambuco, Paraíba...), visto que aquela fenda é a única passagem que corta a grande cuesta da Ibiapaba que se estende desde o litoral, ao norte, até a mesma se encontrar com a chapada do Araripe, mais de 500 km sertão adentro, no sentido sul, sendo que sua largura não excede os 60 km. Como analogia, é como um comprido e alto muro onde o único portão de acesso, sem que houvesse o esforço de saltá-lo, é o estreito boqueirão do Poty, hoje largamente conhecido como cânion do rio Poty.
Diante de tamanho valor cultural, histórico e ambiental, é louvável a parceria entre o IPHAN e a prefeitura Municipal de Buriti dos Montes no sentido de cadastrar e conscientizar a comunidade local sobre o valor daquele complexo arqueológico, a fim de que, num futuro próximo, possamos transformar a região numa unidade de conservação estruturada capaz de receber turistas e pesquisadores de forma adequada e sustentável, gerando assim, renda e melhoria da qualidade de vida das populações situadas no entorno dos maravilhosos sítios de gravuras rupestres do cânion do rio Poty.
Clique aqui e confira o álbum completo da expedição.
FONTE: Benedito Rubens - Assessoria de Buriti dos Montes/ Edição: Pedro Gaspar - Canal Verde


